Buscar
  • VA comunicacao

Entrevista: Luiz Inácio Lula da Silva: “Não verei problema em ser candidato”


O ex-presidente brasileiro busca um consenso para vencer Jair Bolsonaro na próxima eleição presidencial, em 2022 - FOTO: Ricardo Stuckert -

O cabelo ficou branco, a barba também. Mas a energia extraordinária ainda está lá. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 75, concedeu ao Le Monde uma entrevista, por videoconferência, dez dias após a anulação de suas condenações. O líder da esquerda brasileira fala de sua casa, localizada em São Bernardo do Campo, nos subúrbios de São Paulo, ali, justamente, onde começou sua carreira política, como dirigente sindical, durante as grandes greves operárias de Lula, dos anos 1970, que recuperou seus direitos políticos, está determinado a derrotar Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e agora está considerando seriamente uma candidatura presidencial.


Você vai concorrer às eleições presidenciais de 2022 contra Jair Bolsonaro?

Lula | É difícil hoje dar uma resposta simples sim ou não. A decisão do juiz Edson Fachin no início de março provou minha inocência, certamente com cinco anos de atraso. Por anos 210 milhões de brasileiros foram enganados, forçados a acreditar nas mentiras do juiz Sergio Moro e dos promotores “Lava Jato”, que se comportaram como verdadeiros gangsters. A verdade está hoje sobre a mesa, público. Isso é tudo que eu queria.

Então, você está me perguntando se eu vou ser um candidato em 2022? Sinceramente, não sei! Eu tenho 75 anos Em 2022, na época das eleições, terei 77. Se eu ainda estiver em grande forma, e for estabelecido um consenso entre os partidos progressistas deste país para que eu seja candidato, bem, não verei nenhum problema para estar! Mas eu já fui candidato, já fui presidente e cumpri dois mandatos. Também posso apoiar alguém em boa posição para vencer. O mais importante é não deixar Jair Bolsonaro governar mais este país.


Como você vê a situação do país hoje? Comecei na política nos anos 1970 e nunca vi meu povo sofrer como hoje. Pessoas morrendo nos portões dos hospitais, a fome voltou. E, diante disso, temos um presidente que prefere comprar armas de fogo ao invés de livros e vacinas. O Brasil é chefiado por um presidente genocida. É realmente muito triste.

O que o povo quer é o que o Partido dos Trabalhadores lhes ofereceu no passado muito recente: um salário, um emprego, vacinas, educação, crescimento. Acho que é possível reconstruir um país mais humano. Quando eu estava no poder, o Brasil tinha 4,5% de desemprego, um salário mínimo que aumentava a cada ano. Éramos uma espécie de queridinhos, a sexta potência mundial. Eu brinquei com meus colegas franceses e ingleses, dizendo-lhes: “Em breve, nós os ultrapassaremos e ameaçaremos a Alemanha!” Tudo isso para dizer que o povo brasileiro merece coisa melhor que o atual governo.


O PT perdeu 28% das prefeituras nas últimas eleições municipais e o “anti-treinador” continua muito virulento no país. Como você avalia o estado do seu “treinamento”? O que vai acontecer com o PT é o que aconteceu com o Paris Saint-Germain! No ano passado, todos deram a ele o vencedor da Champions League e, finalmente, o clube perdeu. Mas este ano, ele pode vencer (mesmo que o Bayern seja muito bom)! A política é a mesma: ganhamos um golpe, perdemos um golpe! E não é porque perdemos uma eleição que desaparecemos por tudo isso. Com você, François Mitterrand governou por quatorze anos. Durante seu mandato, ele perdeu eleições. A esquerda desapareceu por tudo isso? Claro que não. O PT é o partido com as melhores raízes na sociedade brasileira. Continua a ser uma força política preponderante.


Você vai fazer uma aliança com os outros partidos de esquerda, ou mesmo o centro e a direita? Companheiro, sou uma pessoa coerente! O PT, nas eleições presidenciais, sempre obtém pelo menos 30% dos votos no primeiro turno. Mas a maioria é de 50%, mais um voto! Então, obviamente, se o PT quer vencer, tem que se aliar. Lembro que venci em 2002, escolhi o José Alencar para vice-presidente. Um líder empresarial trabalhador e honesto de um partido de centro-direita, que foi o melhor vice-presidente que este planeta já conheceu!

O PT conseguiu, portanto, formar alianças no passado e vai fazê-lo no futuro. Mas aqui reafirmo algo: sempre governei para todos os brasileiros. Já governei até mesmo para banqueiros e líderes empresariais. Mas minha prioridade sempre serão os mais pobres, os trabalhadores, os habitantes das periferias. Quem conseguir mais atenção e recursos comigo, será o mais necessitado. Porque o dever do PT é permitir a ascensão social dessa população e acabar com as desigualdades, em um país marcado por 350 anos de escravidão.


Mais de dez anos após sua saída do poder, a esquerda brasileira não parece ter produzido novos líderes de sua estatura. Por quê? Mais uma vez farei uma comparação com o futebol! Quanto tempo levou para a França produzir um Kylian Mbappé ou um Zidane? Muito tempo, não é! Política é a mesma coisa. Demorou pelo menos um século para que as esquerdas europeias produzissem um François Mitterrand ou um Willy Brandt. É longo! Mas lembro que o PT tem várias figuras importantes, que podem muito bem ser candidatas às eleições presidenciais. Este partido é produtor de talentos, desde a ex-presidente Dilma Rousseff ao ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.


Você tem 75 anos e ficou muito tempo isolado em casa no ano passado. Como você se sente física e psicologicamente? Quando saí da prisão federal, minha primeira viagem foi a Roma, uma entrevista com o Papa Francisco para falar sobre uma campanha que lancei para combater as desigualdades no mundo. Em seguida, vi representantes da sociedade civil e os líderes com os quais tive contato. Acho que não é possível ver pessoas acumulando milhões de dólares quando há centenas de milhões de pessoas que dormem sem ter o suficiente para comer. Durante esta pandemia, o desemprego e a fome aumentaram. Não é tolerável. De volta ao Brasil, no dia 12 de março, a pandemia já estava lá. Eu estava confinado em minha casa. Ocorreu-me que o país já havia se tornado o epicentro da epidemia. O que podemos dizer com 3.000 mortes por dia?

É responsabilidade do nosso governo. Vou, portanto, pegar o meu e me dedicar ao gerenciamento desta crise. Então tomei uma dose da vacina. Em quatorze dias terei um novo. Desde então, passo meus dias em reuniões em frente à Internet de manhã à noite.


Nesta semana, o Brasil ultrapassou 280 mil mortos. Se você fosse o chefe de estado, o que teria feito? Quando eu era presidente, houve a crise da gripe H1N1. Em três meses, vacinamos 83 milhões de pessoas. O Brasil, com seu sistema de saúde único, era um país com expertise e know-how na área de imunização. Com a chegada de [Michel] Temer e Bolsonaro, nosso sistema, que foi saudado por todo o mundo, foi destruído.

Com o surgimento da Covid-19, um presidente que tivesse a noção do que significa governar teria criado um comitê de crise. Ele teria chamado o ministro da Saúde e os melhores cientistas do país. Esse comitê se reunia uma vez por semana e divulgava as informações para a sociedade brasileira. Ele escolheria as medidas a serem tomadas para todos. O que nosso governo fez? A primeira coisa que disse foi que não acreditava na doença.


Bolsonaro disse que era uma “gripezinha” e que, sendo militar, não pegaria. Ele inventou a história da cloroquina. Ele comprou milhões de doses de Donald Trump. Ele estava errado como uma criança que vai comprar chupeta pode estar errada. Ele desperdiçou milhões comprando este produto Covid-19 ineficaz. Hoje, ele continua a dizer que usar máscara é um sinal de covardia e covardia.

Bolsonaro é tão ignorante! Ele acredita que, ao se recusar a admitir a gravidade da pandemia, a economia vai se recuperar novamente. A única cura é vacinar o povo brasileiro.


E em outro lugar? Desde o início da pandemia, nem o G20 nem o G8 se encontraram para falar sobre o assunto. É urgente! Apelo ao Presidente Emmanuel Macron: chame o G20. Ligue para Joe Biden, Xi Jinping, Vladimir Putin e o resto! Estamos em guerra, é a terceira guerra mundial e o inimigo é muito perigoso! A vacina não deveria ser um produto de mercado como é hoje, mas se tornar um bem comum da humanidade.


Em sua última entrevista para a mídia brasileira, você mencionou a pandemia e a economia. Por que tão pouco no meio ambiente? Hoje, a primeira preocupação é o Covid-19. Lembro, porém, que quando chegamos ao poder, em 2003, o desmatamento na Amazônia atingiu 27 mil km² (por ano). Baixamos esse número para 4.000 km². Conseguimos reduzir os gases de efeito estufa em 69%. Criamos 114 zonas de preservação ambiental, um instituto nacional de observação espacial, o INPE, para controle de desmatamento e queimadas. Bolsonaro acabou com este instituto porque não queria diminuir os incêndios…

Estou ciente do que está acontecendo na Amazônia. Lembrem que tivemos a ministra Marina Silva e o [geógrafo] Carlos Minc, pessoas envolvidas em todas as questões ambientais.


Porém, você validou a barragem de Belo Monte, pela qual tem sido muito criticado. Você tomaria a mesma decisão hoje? Decidimos fazer esta barragem porque somos para a energia hidrelétrica, a energia mais limpa do mundo. Aqui, 80% da energia do Brasil é limpa. Belo Monte é uma barragem a fio de água, ou seja, uma fábrica que não necessita de armazenamento de água.


Antes da construção, conversamos com os índios, os pastores, os padres, os trabalhadores rurais, os moradores… Pedimos a opinião de todos. Não foi uma decisão inequívoca do estado. Nunca no Brasil tomamos tantos cuidados com um canteiro de obras.


O cantor Chico Buarque explica que uma “cultura do ódio” se espalhou pelo Brasil. Você mesmo é o objeto de uma detestação feroz. Como você vive isso? O ódio não é brasileiro. Se existe um povo amoroso e humanista neste planeta, é o povo brasileiro. Mas essas pessoas foram bombardeadas nos últimos anos com discurso de ódio e fanatismo que negou a política. Antes, se encontrássemos um adversário político do Brasil em um restaurante, apertaríamos sua mão. Hoje, corremos o risco de levar um tiro! Temos que desmontar tudo isso. A democracia é exatamente o oposto: é civilidade, maturidade.

Este país precisa de paz, não de armas. É necessário porque 20% a 25% da população é tomada por esse fanatismo. Mas as pessoas precisam de empregos, livros, investimentos em cultura. É isso que temos que recuperar no Brasil. E o povo sabe que existe um partido que é capaz de fazer isso: é o PT.


Você recebe muitas ameaças de morte. Você tem medo por sua vida? Não, não estou com medo. Meu único medo é trair o povo brasileiro.


Você está preocupado com os procedimentos legais que ainda estão por vir? Estou muito confiante, tranquilo. Tenho certeza que hoje, o juiz Moro e o procurador [Deltan] Dallagnol [magistrado coordenador da operação “Lava Jato”] não têm um percentual da paz que me habita. Eles são os culpados e sabem que sou inocente. Eu dizia isso na prisão: a verdade vai vencer e está vencendo.


O que você prevê nas próximas semanas? Eu adoraria viajar pelo Brasil e pelo mundo. Gosto de política, a real, do contato físico com as pessoas. Sabe, gosto de abraçar as pessoas, passar a mão em suas cabeças, sentir aquela química com elas. Mas, por enquanto, você tem que ficar em casa. O vírus está circulando ativamente, a prioridade não é transmiti-lo. A prioridade é a vacinação e o combate à epidemia.


Entrevista para o jornal Le Monde

11 visualizações0 comentário